Alvédrio
- Gustavo Noronha
- há 5 dias
- 4 min de leitura
Alvédrio é o primeiro livro de poesia de Gustavo Souto de Noronha, publicado em 2010 pela Editora Livre Expressão (Rio de Janeiro). ISBN: 978-85-7984-070-8. Tiragem de 500 exemplares.
O título — que remete ao livre-arbítrio, à liberdade de escolha e pensamento — dá o tom de uma obra que oscila entre o manifesto político, a prosa poética e o lirismo amoroso. Como o próprio autor escreve no "Manifesto Alvedrista" que abre o livro: "Só do alvedrio necessita o homem. O homem só torna-se homem quando livre."
---
MANIFESTO ALVEDRISTA
Só do alvedrio necessita o homem.
O homem só torna-se homem quando livre.
Consiste no principal direito e garante a individualidade de cada um.
Libertemo-nos da hipocrisia! Libertemo-nos da mediocridade! Libertemo-nos da sanidade! Libertemo-nos!
Fiquemos todos loucos. Só os loucos libertam-se.
Libertemo-nos da vida! Libertemo-nos da morte!
Deixemos tudo ao governo do livre-arbítrio.
Pensem! Pensem! Pensem! Pensem! O alvedrio vem do pensamento.
Sejamos orgulhosos! Deixemos que nos subestimem, mas estejamos sempre um, dois ou até três passos à frente.
Mostrem ao mundo que somos livres! Somos loucos o suficiente para sermos livres. Somos os insanos que tanto temem os profetas.
A derivada do amor é a felicidade. Vivemos derivando amor. E integrando felicidade.
O alvedrio é o sonho! Sonhar nos coloca mais perto do alvedrio total.
Esqueça a racionalidade e se concentre no vazio, talvez aí se encontre o alvedrio.
Uma vez conquistado o alvedrio. Para sempre conquistado o alvedrio.
Rio de Janeiro, 1 do mês 1 do ano 1 da minha libertação.
---
VASO DE POROS
Num meio mundo inteiro
Nasci morto, mas estou vivo
Não vi chegar fevereiro
Passou março, que alívio
Tudo que sei eu esqueci
O que me ensinaram já ignoro
Sigo um caminho que não escolhi
Pareço um vaso cheio de poros
No mundo que vale a pena
Perdi o interesse nas cousas
Procuro alguém que me entenda
Apagaram as fórmulas da lousa
Entretenho-me com o nada
Distorço a mentira do amor
Essa história mal contada
Tirou-me todo o pudor
---
AQUELE LUGAR
Quero que você me encontre algum dia da sua vida em um lugar qualquer que você sabe qual é. Não traga nada além dos seus sonhos e esperanças. Deixe para trás os desenganos e corações partidos. Venha sozinha, a carregar as lembranças do nosso passado. Sente àquela mesa que você bem sabe qual é — não deverei demorar, mas dar-lhe-ei algum tempo para pedir um uísque sem gelo e de enxugar suas lágrimas. Quando eu chegar, disfarce um sorriso e me dê dois beijinhos. Conte-me alguma história que você sabe qual é e invente mentiras sobre como tem passado os últimos anos. Ouça com atenção e finja acreditar nos casos que hei de lhe contar. Façamos de conta que tudo valeu a pena e que somos mais felizes assim; rir do que nos sucedeu não fará mal algum.
---
COMPASSO
I
Indaguei meu coração se era possível viver de sonhos, respirar fantasias, alimentar-se de ilusões. Meu coração ficou quieto, provavelmente sonhava, deixando sua existência com sonhos e fantasias e ilusões.
II
Quando me perguntam se tenho medo da morte, explico que meu pavor vem da vida, do seu curto espaço de tempo. Temo sim, não morrer, temo que a vida não caiba nos meus sonhos, que me falte tempo para vivê-los.
---
MEU MUNDO
Não há mais mistérios no meu coração,
Vou para onde me levar o vento,
Soltei as amarras e fui navegar,
Mergulhei nesta fantasia de versos perdidos.
Sonhei com uma criança cantando alegre
Músicas de um passado que não aconteceu,
Abria gaiola de alguns delírios,
E te vi voando rumo a uma estrela.
Morei no infinito, fui vizinho de um anjo
Que me contava histórias sobre a casa de Deus,
Plantei euforia em olhares dementes,
Fui procurar o que não perdi.
Crio ilusões e danço nos sonhos,
Vivo de enganar a razão,
Mas minha vida é um lugar inexistente,
E esse meu mundo é mais real que o teu.
---
VERSOS DE SÃO JOÃO
O vento seco
Traz cheiro de chuva
Milho pipoca nas roças
Algodão doce no parque
Mandacaru na cerca
Enquanto histórias de um ancião
Passeiam nos pés ágeis de um menino magrelo
Na viúva e suas cinco filhas que se vendem por um
baião de dois a qualquer caminhoneiro
Ou naquela senhora com a lata na cabeça matando a
sede da família com água do açude
A tristeza da caatinga transparece no marrom que rouba
o verde
Até explodir no céu de dezembro quando as lágrimas
trazem de volta as folhinhas
Mas é quase junho
E São João se aproxima no barulho dos fogos
O coronel encomenda o arraial
E o povo fodido, explorado
Esquece a fome e a tristeza na marcação da zabumba
E dança feliz um arrasta-pé.
---
FADA MADRINHA
Um sonho
que deixa um vazio
Uma ilusão
que dói,
como dói
Tumulto de emoções
Esquisito
Lágrimas com a ausência
Um anjo nos deu sorrisos
e nos deixa saudades
Tantas perguntas
sem respostas
A certeza,
inabalável,
da fé no amor
E na geografia da alma
ainda reside
nos corações
aquele olhar
Peço licença,
com a sua bênção,
eu vou sonhar.
---
SEPARAÇÃO
Se eu soubesse chorar
Quase a felicidade
O sonho de uma criança
Meu amor
O buquê de flores largado no chão
O espelho quebrado
Esse verso meio tristonho
A chuva, livros de poemas
A nossa viagem sempre adiada
No caminho para Pernambuco
Canto uma moda de viola
Ontem parece amanhã
Sexo sem afeto
Pelo menos um 'até logo'
Se eu soubesse sorrir
Todo o dia de sol
Devia valer um beijo
Comentários