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Alvédrio

Alvédrio é o primeiro livro de poesia de Gustavo Souto de Noronha, publicado em 2010 pela Editora Livre Expressão (Rio de Janeiro). ISBN: 978-85-7984-070-8. Tiragem de 500 exemplares.


O título — que remete ao livre-arbítrio, à liberdade de escolha e pensamento — dá o tom de uma obra que oscila entre o manifesto político, a prosa poética e o lirismo amoroso. Como o próprio autor escreve no "Manifesto Alvedrista" que abre o livro: "Só do alvedrio necessita o homem. O homem só torna-se homem quando livre."


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MANIFESTO ALVEDRISTA


Só do alvedrio necessita o homem.


O homem só torna-se homem quando livre.


Consiste no principal direito e garante a individualidade de cada um.


Libertemo-nos da hipocrisia! Libertemo-nos da mediocridade! Libertemo-nos da sanidade! Libertemo-nos!


Fiquemos todos loucos. Só os loucos libertam-se.


Libertemo-nos da vida! Libertemo-nos da morte!


Deixemos tudo ao governo do livre-arbítrio.


Pensem! Pensem! Pensem! Pensem! O alvedrio vem do pensamento.


Sejamos orgulhosos! Deixemos que nos subestimem, mas estejamos sempre um, dois ou até três passos à frente.


Mostrem ao mundo que somos livres! Somos loucos o suficiente para sermos livres. Somos os insanos que tanto temem os profetas.


A derivada do amor é a felicidade. Vivemos derivando amor. E integrando felicidade.


O alvedrio é o sonho! Sonhar nos coloca mais perto do alvedrio total.


Esqueça a racionalidade e se concentre no vazio, talvez aí se encontre o alvedrio.


Uma vez conquistado o alvedrio. Para sempre conquistado o alvedrio.


Rio de Janeiro, 1 do mês 1 do ano 1 da minha libertação.


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VASO DE POROS


Num meio mundo inteiro

Nasci morto, mas estou vivo

Não vi chegar fevereiro

Passou março, que alívio


Tudo que sei eu esqueci

O que me ensinaram já ignoro

Sigo um caminho que não escolhi

Pareço um vaso cheio de poros


No mundo que vale a pena

Perdi o interesse nas cousas

Procuro alguém que me entenda

Apagaram as fórmulas da lousa


Entretenho-me com o nada

Distorço a mentira do amor

Essa história mal contada

Tirou-me todo o pudor


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AQUELE LUGAR


Quero que você me encontre algum dia da sua vida em um lugar qualquer que você sabe qual é. Não traga nada além dos seus sonhos e esperanças. Deixe para trás os desenganos e corações partidos. Venha sozinha, a carregar as lembranças do nosso passado. Sente àquela mesa que você bem sabe qual é — não deverei demorar, mas dar-lhe-ei algum tempo para pedir um uísque sem gelo e de enxugar suas lágrimas. Quando eu chegar, disfarce um sorriso e me dê dois beijinhos. Conte-me alguma história que você sabe qual é e invente mentiras sobre como tem passado os últimos anos. Ouça com atenção e finja acreditar nos casos que hei de lhe contar. Façamos de conta que tudo valeu a pena e que somos mais felizes assim; rir do que nos sucedeu não fará mal algum.


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COMPASSO


I


Indaguei meu coração se era possível viver de sonhos, respirar fantasias, alimentar-se de ilusões. Meu coração ficou quieto, provavelmente sonhava, deixando sua existência com sonhos e fantasias e ilusões.


II


Quando me perguntam se tenho medo da morte, explico que meu pavor vem da vida, do seu curto espaço de tempo. Temo sim, não morrer, temo que a vida não caiba nos meus sonhos, que me falte tempo para vivê-los.


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MEU MUNDO


Não há mais mistérios no meu coração,

Vou para onde me levar o vento,

Soltei as amarras e fui navegar,

Mergulhei nesta fantasia de versos perdidos.


Sonhei com uma criança cantando alegre

Músicas de um passado que não aconteceu,

Abria gaiola de alguns delírios,

E te vi voando rumo a uma estrela.


Morei no infinito, fui vizinho de um anjo

Que me contava histórias sobre a casa de Deus,

Plantei euforia em olhares dementes,

Fui procurar o que não perdi.


Crio ilusões e danço nos sonhos,

Vivo de enganar a razão,

Mas minha vida é um lugar inexistente,

E esse meu mundo é mais real que o teu.


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VERSOS DE SÃO JOÃO


O vento seco

Traz cheiro de chuva


Milho pipoca nas roças

Algodão doce no parque

Mandacaru na cerca


Enquanto histórias de um ancião

Passeiam nos pés ágeis de um menino magrelo


Na viúva e suas cinco filhas que se vendem por um

baião de dois a qualquer caminhoneiro


Ou naquela senhora com a lata na cabeça matando a

sede da família com água do açude


A tristeza da caatinga transparece no marrom que rouba

o verde


Até explodir no céu de dezembro quando as lágrimas

trazem de volta as folhinhas


Mas é quase junho

E São João se aproxima no barulho dos fogos


O coronel encomenda o arraial

E o povo fodido, explorado


Esquece a fome e a tristeza na marcação da zabumba

E dança feliz um arrasta-pé.


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FADA MADRINHA


Um sonho

que deixa um vazio

Uma ilusão

que dói,

como dói


Tumulto de emoções

Esquisito

Lágrimas com a ausência


Um anjo nos deu sorrisos

e nos deixa saudades


Tantas perguntas

sem respostas


A certeza,

inabalável,

da fé no amor


E na geografia da alma

ainda reside

nos corações

aquele olhar


Peço licença,

com a sua bênção,

eu vou sonhar.


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SEPARAÇÃO


Se eu soubesse chorar


Quase a felicidade

O sonho de uma criança

Meu amor


O buquê de flores largado no chão

O espelho quebrado

Esse verso meio tristonho


A chuva, livros de poemas

A nossa viagem sempre adiada

No caminho para Pernambuco

Canto uma moda de viola


Ontem parece amanhã

Sexo sem afeto

Pelo menos um 'até logo'


Se eu soubesse sorrir


Todo o dia de sol

Devia valer um beijo

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